Estou novamente sentindo o vazio existencial de ser uma jovem adulta de 20 e tantos anos que não faz ideia do que fazer com a vida. Esse sentimento é cada vez mais familiar, mas não significa que seja menos desconfortável. Pelo contrário, é cada vez mais desesperador: até quando?
Eu me formo esse ano em Design Gráfico e não sei se quero trabalhar na área, não sei se conseguirei arranjar um mísero estágio. E, se eu arranjar, significaria que eu teria que sair de casa todas as manhãs, ficar fora o dia todo e deixar meus cachorros sozinhos, e não poder mais ver a Tia Made, já que ela só vem em casa em dias de semana. Eu perderia meus almoços com ela, meu tempo com ela. E eu já sou constantemente assombrada pelo medo de perder ela, seja por questões de saúde, seja por questões de ela não trabalhar mais aqui por sei lá que motivos. Vale a pena perder isso por um mísero estágio remunerado numa área que não quero muito seguir? Eu gosto de Design, mas os únicos estágios são na área de Marketing e Publicidade, que eu detesto. Eu já estou fazendo estágio na faculdade, na Filamento (agência experimental deles), mas não é remunerado. Melhor que nada, eu acho.
Só sei que quero estudar arquitetura ano que vem na UNAERP. Meu plano atual é me especializar em 3D, fazer projetos de renderização, talvez trabalhar como designer freelancer. Mas tenho tanto a aprender ainda. Ás vezes eu esqueço que estou só no meu segundo (e último) ano de faculdade. Tudo está acontecendo muito rápido. Eu me sinto tão velha tendo 21 anos, tendo gastado 2 anos em cursinho, decidindo o que fazer da vida. Mesmo na faculdade, não decidi ainda o que fazer da vida. O tempo está passando, e eu sinto a pressão de ter que ganhar dinheiro e fazer meu sustento, ou, no mínimo, ter algum resultado visível. Eu não consigo nem sustentar uma página online pra postar meus desenhos medíocres, quem dirá sustentar uma carreira.
Num mundo ideal, eu estaria postando meus desenhos, meus designs, meus aprendizados, e estaria sendo relativamente reconhecida, talvez conseguindo algumas oportunidades legais. Isso que nem estou sonhando tão alto. No mundo real, eu prometi a mim mesma que iria fazer meus cursos de design nas férias, e não dei "play" em nenhuma aula. Não abri o Photoshop, o Illustrator ou o Blender. Por outro lado, estou assistindo à algumas aulas sobre Cinema e filmes de terror, estou aproveitando o tempo com meus amigos, com a minha namorada, com minha mãe e meus cachorros. Mas a falta de ser produtiva e o medo de não ser ninguém na vida, não somem assim.
Sinto que tenho potencial, mas não consigo atingir esse potencial. E que estou desperdiçando isso todos os dias que sou improdutiva. Só queria respostas. Um manual de como fazer as coisas certas no momento certo pra, no final, ter a garantia de que tudo vai dar certo. Já tive essa conversa incontáveis vezes com a Majuh e a Luly. É o medo da nossa geração de ver que as gerações um pouco mais velhas que nós, que cresceram com a promessa de que "seu esforço vai ser compensado", hoje são frustradas com a falta de emprego, a falta de reconhecimento, o desamparo, a angústia. E a gente tá seguindo o mesmo caminho, já sabendo o que nos espera. Então essa angústia que eu sinto agora, é o medo de um futuro desesperador que parece cada vez mais previsível.
E, pra não ser tão previsível, pra não me pegar tanto de surpresa, sinto que estou cada vez mais parando de sonhar com a vida. Antes, eu sonhava com tantas possibilidades, de estudar fora, trabalhar num estúdio de animação no Canadá, viver em volta de muita natureza e com conforto. Quanto mais tempo passa, mais meus sonhos são afunilados, mais eu me diminuo pra me encaixar na realidade, pra não cair na previsibilidade da insatisfação com a minha própria vida. É isso que significa crescer? É por isso que dizem que é tão doloroso? Ver seus sonhos morrerem por escolha própria, pelo medo da frustração?
Hoje eu vi uma mulher de 48 anos dizer que não sonha mais com a vida. Que todos os sonhos que ela teve na vida, principalmente o sonho de ser mãe e construir uma família estruturada, foram desmoronados. Ela vive sendo mãe solo, pra sempre arrastando a frustração ter "quase" conseguido.
Só queria deixar essa música da Chappell que fala sobre a frustração de "quase" conseguir, porque me identifiquei muito quando ouvi. Eu não sinto que cheguei lá ainda, mas minha tristeza é pelo luto de saber que, se eu continuar do jeito que estou, eu chegarei nesse ponto. E, já sabendo disso, sinto tristeza por mim mesma em antecipação por algo que não aconteceu. Ironicamente, isso vai me autossabotar e vai me levar exatamente ao lugar onde não quero estar.
Coloquei "Mamma Mia!" pra assistir na Netflix, achando que iria levantar um pouco meu astral. Chorei nos primeiros 10 minutos de filme com a primeira música, super animada e alegre. Tudo porque, nas primeiras cenas, aparecem 3 meninas, por volta da minha idade, cantando e dançando e sendo meninas. Sentindo alegria, empolgação, animação. Eu não perdi isso ainda, mas depois de ver que, ao envelhecer, você para de sonhar, e ao perceber que isso está aos poucos acontecendo comigo, eu chorei. Chorei por medo de saber que estou perdendo isso, e que talvez seja inevitável. Eu só quero ser uma menina de 21 anos, vivendo a vida no meu tempo. Cansei de antecipar as coisas, cansei de meu autossabotar. Cansei.
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